Veronica Souza CEO CARCEL

CARCEL: empoderando detentas através do trabalho

// Entrevista: Veronica D’Souza

Fundadora e CEO da CARCEL

O que é a CARCEL e como essa ideia de negócio começou?

VS:  A CARCEL é uma marca de roupas feita por detentas em diferentes partes do mundo utilizando materiais 100% naturais e design dinamarquês. Tive essa ideia depois de visitar uma prisão no Quênia e ver, em primeira mão, como as mulheres presas já produziam têxteis para se manterem ocupadas 8 horas por dia. Mas, sem acesso a bons materiais, projetos ou um mercado para vender, elas não podiam ganhar dinheiro próprio com seu trabalho.

Em todo o mundo, centenas de milhares de mulheres são presas devido a crimes não violentos, por tráfico de drogas, roubo ou prostituição. A principal causa do encarceramento feminino nos países em desenvolvimento é a pobreza.

Iniciei a CARCEL para usar os recursos que já existem, máquinas, tempo, pessoas, habilidades etc., e transformar anos perdidos em novas habilidades e bons salários. O objetivo é que essas mulheres possam cobrir os custos básicos de vida, enviar seus filhos para a escola, economizar para um novo começo livre de crimes e, finalmente, quebrar o ciclo   da pobreza.

 

Por favor, conte-nos sobre o modelo de negócio e o que há de diferente sobre ele.

VS: A CARCEL lança um novo ponto de vista na produção da moda de luxo feminina e fazemos isso de forma verdadeiramente inovadora e criativa, equilibrando a venda da moda de luxo com a melhoria das condições de vida das mulheres na prisão e suas famílias, da melhor maneira possível.

Nosso projeto pretende romper com a indústria tradicional da moda (também conhecida como fast fashion), uma vez que não possui nenhuma estação tradicional. Em vez disso, capacitamos as mulheres em novos estilos e os lançamos quando elas e nós estamos prontas. Isso é possível porque vendemos exclusivamente online através de nossa própria plataforma, por isso decidimos o ritmo.

Dessa forma, podemos garantir uma formação ideal e uma qualidade ótima de cada peça. Vamos para onde os materiais de maior qualidade atendem às mais altas taxas de encarceramento feminino relacionado à pobreza, pagando salários justos às mulheres para fazer projetos a partir de materiais de origem local e sustentável. Não são utilizados produtos químicos e é necessária muita pouca água e corante.

Como estamos trabalhando com fibras naturais, elas são completamente biodegradáveis. Ao mesmo tempo, mantemos os preços baixos aos consumidores, reduzindo o valor vendendo apenas online. Nossa primeira coleção consiste em malhas simples e chiques feitas de lã de alpaca 100%, fabricado por mulheres na prisão feminina de Cusco, no Peru.

 

O que o levou ao Peru e às prisões deste país a serem as primeiras da marca?

VS: O número de mulheres presas no Peru praticamente dobrou nos últimos 15 anos, com muitas atrás das grades por cometer crimes relacionados à pobreza, particularmente o tráfico de drogas.

Além disso, o Peru tem uma longa tradição de alpacas e tricôs, por isso usamos a fantástica experiência dessas mulheres e transformamos o tempo desperdiçado em habilidades e empregos remunerados, para que as mulheres encarceradas possam sustentar a si mesmas e seus filhos.

A lã de alpaca é um material exclusivo e sustentável que faz belas peças de vestuário que vão durar muito tempo.

Mulheres da Prisão de Cusco, Peru

Como a Sra. vê as mulheres encarceradas que trabalham com a CARCEL?

VS: Vemos as funcionárias da CARCEL com o maior respeito, confiamos nelas e em suas habilidades profissionais. A base da CARCEL é capacitar as mulheres a se engajarem na produção de itens de moda de alta qualidade para um mercado internacional e fazer o melhor para todos os interessados envolvidos no projeto: nós, mulheres, parceiros e clientes.

Muitas das mulheres privadas de liberdade têm filhos para sustentar e estão na prisão principalmente por causa da pobreza, somado a baixos níveis educacionais. Elas são extremamente dedicadas ao aprendizado e motivadas a fazer o seu melhor e ganhar dignidade e orgulho por terem algo para enviar para suas famílias.

Vemos um potencial incrível nas mulheres que trabalham conosco e temos certeza de que elas estão e estarão melhor, porque elas não só estão ganhando a vida, mas também estão adquirindo habilidades e hábitos de trabalho que irão promover sua independência financeira e contribuir para uma nova vida cumpridora da lei assim que cada uma delas for posta em liberdade.

Quais os principais obstáculos enfrentados durante a implementação do projeto?

VS: Estabelecer uma produção dentro de uma prisão significa que não há contato através de e-mail ou telefone. Isso é desafiador e requer boas relações de confiança para funcionar. Além disso, a prisão não está configurada com o propósito de ser administrada como uma fábrica.

Mesmo que as instalações estejam lá, há muitas outras atividades durante o dia que devem ser respeitadas e contadas no cronograma de trabalho, como visitas de parentes, visitas de ONGs e instituições religiosas, eventos, reuniões com agentes penitenciários etc.

Além disso, é comum que muitas mulheres sofram de depressão e são muito afetadas por qualquer evento que ocorra no exterior relacionado aos seus parentes. Isso significa que, muitas vezes, as mulheres não podem trabalhar oito horas por dia, e é necessário criar um sistema de pagamento que as remunera por item, em vez de por hora, para que também possamos incluir aquelas que podem não conseguir trabalhar tanto.

Essas variáveis podem ser vistas como desafios, mas também acredito que é isso é o que impulsiona a produção estabelecida a ser única, pois precisamos inventar novas formas de gerenciá-la, para que seja ótima para as mulheres, para o sistema prisional e para a marca.

Até que ponto este projeto está fazendo a diferença na vida das mulheres que estão envolvidas nele?

VS: As mulheres estão muito satisfeitas por terem a oportunidade de trabalhar e ganhar a vida, o que pode beneficiar a si mesmas e suas famílias para sempre.

Elas se orgulham de trabalhar com roupas de qualidade que serão vendidas em todo o mundo e elas realmente se dedicam a fazer uma produção meticulosa e cuidadosa.

Elas colocaram o coração nisso. Todos elas disseram que trabalhar é a melhor parte sobre a prisão, porque mantém os pensamentos fora do quanto sentem falta de sua família e faz com que o tempo passe muito mais rápido.

Que benefícios representa para o sistema prisional?

VS: O sistema prisional já está fazendo muito em termos de formação profissional e motivação. Nós entramos, complementamos seu trabalho e transformamos a nossa chegada em uma saída produtiva. Nesse sentido, é uma grande parceria que desempenha um papel importante na missão da prisão.

Ao ter internas motivadas e mais felizes, tem-se uma melhor segurança, o que significa um ambiente melhor para os funcionários que, em seguida, têm mais energia e tempo para se concentrar na ressocialização, o que novamente conduz a uma vida melhor para as detentas.

Trata-se de adicionar à espiral positiva que pode levar ao melhor resultado possível para a presa e sua libertação. Nossa parceria com o sistema prisional no Peru é fantástica e eles também estão interessados em inovar e ver como podem aprender com esse processo. É a primeira vez que cooperam com uma empresa internacional.

Há algo mais neste negócio do que um comércio justo?

VS: Acreditamos que os clientes estão prontos para comprar roupas bonitas, o que também resolve os problemas do mundo, em vez de criar mais. Então eu diria que sim, nosso projeto vai muito além do comércio justo.

Permita-me destacar que tanto a moda quanto a indústria têxtil são, em geral, indústrias muito poluentes, perdendo apenas para a indústria petrolífera. Portanto, é muito difícil para o consumidor final entender a pegada ambiental e social de suas compras e certamente não achamos que o futuro deve ser caracterizado pela má consciência e moralidade.

Em vez disso, estamos desenvolvendo grandes alternativas com designs suntuosos, que transbordam qualidade tanto na expressão quanto em sua jornada pelo mundo. É o futuro em que acreditamos e trabalhamos, sem comprometer nenhum desses elementos da equação: design, qualidade, planeta e pessoas.

 

Como a Sra. espera que seu negócio se desenvolva e se desdobre a curto prazo? Há outros países em que considera produzir?

VS: Nossa missão é global. Nosso objetivo é ir para onde acreditamos que podemos causar um impacto através da produção de produtos bonitos com materiais naturais. Estamos investigando o potencial de montar uma produção em prisões femininas na Tailândia.

Estou agora no final de uma viagem de pesquisa de três semanas onde visitamos prisões por todo o país. Fomos muito bem recebidas pelo departamento penitenciário e estamos discutindo um modelo potencial para a criação de uma parceria.

A Tailândia tem uma tradição fantástica de fazer belas sedas, uma experiência dirigida por mulheres há gerações. Ao mesmo tempo, o país ocupa o 6º lugar na lista de países com mais presos por habitante, sendo que 80 a 90% das mulheres foram condenadas por crimes relacionados com drogas.

Também estamos investigando outros países e recebemos quaisquer sugestões e convites das prisões que possam estar interessados em uma parceria.

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Veronica D’Souza é uma empreendedora social dinamarquesa. Além de fundadora e CEO da CARCEL, ela também é co-fundadora da Ruby Cup e membro da Global Shapers Community. Possui mestrado em Negócios Internacionais e Política e graduada em Negócios Sustentáveis pela Copenhagen Business School.

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